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AVENTURAS MARÍTIMAS

Contando há tempos com um estoque de livros a me fazer incansáveis sinais para que eu os tirasse do indevido castigo na prateleira, resolvi aproveitar uns dias de férias para, em regime de trabalhos forçados, colocar a leitura em dia.

O primeiro livro sobre o qual me atirei com uma gula quase vergonhosa foi "No Coração do Mar", de Nataniel Philbrick, considerado uma das melhores obras do gênero editadas neste final de século nos Estados Unidos. Nela o autor nos conta a história real na qual um cachalote de 26 metros abalroa e afunda o Essex, um velho navio baleeiro americano em pleno Oceano Pacífico, no ano de 1821. A semelhança com o drama de "Moby Dick", não é mera coincidência, pois foi neste fato, amplamente noticiado pelos meios de comunicação da época, que Hermann Melville inspirou-se para escrever o livro que se tornou um dos maiores clássicos da literatura marítima.

A partir do caderno de notas de um dos tripulantes do Essex aliado a uma minuciosa pesquisa, Philbrick retraça com detalhes a vida dos homens baleeiros: de onde vinham, como construíam seus navios, como escolhiam a tripulação, as características e o comportamento das baleias, a industrialização dos seus produtos derivados e inúmeros outros detalhes que vêm a compor com perfeição a vida marinheira na época. Todavia, enquanto o ponto final do livro de Melville é o afundamento do navio Pequod pela famosa baleia branca, este fato por si só inacreditável é apenas o início de "No Coração do Mar", cuja linha mestra é a trágica odisséia dos tripulantes do Essex que se seguiu ao ataque do cachalote, os quais restaram três meses confinados em botes à deriva no Pacífico, entre a loucura e a morte e por fim recorrendo ao canibalismo como medida extrema de sobrevivência. Uma das raras ocasiões em que a imaginação humana foi de longe superada pela realidade.

Contrabalançando com uma dica mais leve e fazendo justiça aos autores nacionais, excelente revelação foi "De Vento em Proa", de Álvaro Otranto, cuja leitura por muito pouco não me fez perder o vôo Rio-Porto Alegre, tão distraído eu me encontrava quando chamaram para o embarque...

Este calejado velejador, especialista em navegação, ex-integrante da marinha mercante e hoje colaborador da Revista Náutica, desengavetou da sua memória a inspirada e divertida narrativa de como foi contratado para conduzir o veleiro Anerag desde o Brasil até o porto espanhol de Cádiz, no início dos anos 80. A viagem não teria nada de especial se Otranto não tivesse se deparado com um cinqüentenário iate de madeira, de casco permeável, carente de manutenção e dos mais básicos equipamentos de navegação e segurança. Depois de uma surpreendente liberação pelas autoridades portuárias brasileiras, Otranto seguiu com uma eclética tripulação para uma velejada de 80 dias atravessando o Atlântico, intercalando momentos de diversão e pura aventura.

Este relato que foi guardado pelo seu autor por longos anos antes de ser publicado, como um bom vinho, fez jus ao amadurecimento e resultou num livro instrutivo, gostoso e divertido, que magnetiza o leitor até a última página com as peripécias do Anerag. Espero que a revelação da veia narrativa do Capitão Otranto o encoraje a nos brindar com o seu baú de histórias e que "De Vento em Proa" seja apenas a primeira de muitas obras deste novo escritor nacional!

E ainda com temas náuticos, com prazer noticio a descoberta de uma rara pérola: "El Viaje del 'Liberdade'", de Joshua Slocum, o mesmo autor do conhecidíssimo "Velejando Solitário ao Redor do Mundo", um dos maiores clássicos da literatura marítima, já comentado nesta coluna e publicado no Brasil pela Editora Mercado Aberto.

Poucos sabem que Slocum, o primeiro homem a circunavegar o mundo velejando em solitário, antes da sua histórica proeza naufragou no litoral do Paraná, no ano de 1887. Com a perda total do navio mercante que comandava, sem meios financeiros e isolado e com a família abrigada na cidade de Paranaguá, Joshua Slocum descreve como construiu com as próprias mãos e a duríssimas penas a Liberdade, uma embarcação de 11 metros, lançada ao mar no dia da liberação dos escravos no Brasil e na qual transportou a esposa e seus filhos em uma viagem de 5.000 milhas de volta aos Estados Unidos.

Completamente arruinado depois da perda do seu barco, o Capitão Slocum publicou este livro em 1890 mas não obteve muito sucesso junto ao público, obrigando-o a trabalhar em arsenais e estaleiros até que ganhasse de um amigo o Spray, o pequeno veleiro com o qual realizou a circunavegação do globo aos 54 anos de idade. Apesar de ainda não publicada em português, as curiosas (des)venturas do Capitão Slocum no Brasil, as suas dificuldades com as autoridades, as lutas contra motins, o cólera e a varíola a bordo foram resgatados nesta edição espanhola, disponível sob encomenda nas boas livrarias do ramo.

Enfim, bem acompanhados deste trio de especialistas em aventuras marítimas e com tantos navios à disposição, proponho que carimbem logo seus passaportes e

Boa leitura!

Porto Alegre, abril de 2001.
(Atualização em junho de 2001.)

PARA SABER MAIS:
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PHILBRICK, Nathaniel - No Coração do Mar, Companhia das Letras, São Paulo, 2000, 1a edição.
OTRANTO, Álvaro - De Vento em Proa, Rio de Janeiro, Moana Livros, 2000, 3a edição.
SLOCUM, Joshua - El Viaje del 'Liberdade', Barcelona, Editorial Juventud,1994.

Terra Australis: Velejando solitário ao redor do mundo

 

 

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No Coração do Mar


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De Vento em Proa


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