Consciente, montanhismo se organiza no Sul do país

Não por coincidência, a recente notícia de que uma equipe mista de escaladores gaúchos e catarinenses conquistou uma via de 400 metros em uma escarpa basáltica na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina, representa uma pequena amostra do boom que vem experimentando o montanhismo no sul do país, mais do que nunca em evidência após a chegada de paranaense Waldemar Niclevicz ao cume do K2, em julho passado.

A vizinhança com os países do Mercosul, em especial a Argentina e o Chile, também estimula o trânsito de escaladores tanto de rocha quanto de alta montanha em direção à Cordilheira dos Andes, mesmo porque o cobiçado Monte Aconcágua, ponto culminante das Américas com 6.969 m, encontra-se a pouco mais do que dois dias de viagem de carro a partir do RS, em uma rota cansativa pela distância, mas totalmente asfaltada.

Mas para aqueles que pensam que o relevo do Rio Grande do Sul resume-se ao infinito e verde horizonte do Pampa, informa-se que inúmeras formações rochosas oferecem desafios dos mais variados graus de dificuldade aos escaladores de rocha, especialmente nas localidades de Caçapava, Bagé, Morungava, Montenegro e algumas outras.

Pai do montanhismo

Em julho deste ano foi fundada em Porto Alegre a Associação Gaúcha de Montanhismo - AGM, reunindo montanhistas das mais diversas origens em torno de um objetivo comum: estimular a prática das variadas formas desta atividade e organizá-la em torno de uma entidade representativa, legalmente constituída e registrada, exceção à regra de informalidade que hoje vigora dentre a maioria das entidades de gênero semelhante.

Tendo como presidente de honra Edgar Kittelmann, considerado o pai do montanhismo gaúcho e um ícone para as gerações que o seguem até hoje, a AGM vem organizando cursos técnicos, palestras e mutirões de limpeza junto às zonas de escalada, acompanhados de campanhas de conscientização ecológica dentre a população vizinha.

Em Porto Alegre, a AGM segue paralela aos passos da Associação Cânions da Serra Geral - ACASERGE, já no seu terceiro ano de ativa existência, cujo objetivo principal é a prática do canionismo na região da Serra Geral, divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina, onde estão localizados alguns dos mais famosos cânions brasileiros, como o Malacara e o Fortaleza, personagens constantes nas revistas de aventura, e única a contar dentre seus membros com monitores formados pela Escola de Descida de Cânion da Federação Francesa de Espeleologia, qualificação internacionalmente reconhecida e resultado de intercâmbio em vigor entre as entidades desde 1998.

Ecologia e tropeço no Malacara

Ainda em fase de organização, pouco a pouco consolida-se o Grupo de Resgate em Ambientes Verticais - GRAVE-RS, também de Porto Alegre, formado por voluntários civis na sua maioria oriundos do montanhismo e do canionismo que, como o próprio nome anuncia, vêm aprimorando a formação como socorristas a fim de agirem como uma equipe auxiliar especial em conjunto com Corpo de Bombeiros em situações extremas de perigo em altura.

Mas estas associações não se resumem apenas a perseguir dos seus objetivos imediatos, mas revestem-se de um papel mais dinâmico, didático e abrangente, proporcionando aos seus membros um efetivo aprimoramento técnico na atividade-fim e desenvolvimento da consciência ecológica, tão necessária àqueles que praticam atividades junto à natureza.

Não por outro motivo a ACASERGE manifestou-se recentemente junto ao jornal Zero Hora, de Porto Alegre, o qual divulgou a conquista de uma big wall de 400 metros no Cânion do Malacara, sem dúvida um feito notável, mas que, todavia, deixou de noticiar que foi a mesma realizada dentro dos limites do Parque Nacional da Serra Geral, de forma desautorizada pelo IBAMA e sem a observância de algumas normas fundamentais de destinação do lixo em uma zona de preservação ecológica.

Desta forma, mais do que se limitarem às suas finalidades e sim com uma atuação solidária e participante junto às comunidades onde nasceram, as associações gaúchas passam a destacar-se mais e mais pelo exercício de um papel didático de formação da consciência ecológica como requisito indispensável para a prática de qualquer atividade junto à natureza, comportamento ainda longe de ser a regra em um país de dimensões continentais como o nosso.


Porto Alegre, 31 de Agosto de 2000.