21
de novembro de 1998, 14h00.
O dia está perfeito, límpido e ensolarado. Apesar do calor e do ar denso
de umidade, os integrantes da equipe vestem roupas de neoprene para
se proteger da hipotermia causada pela torrente de água fria que se
despeja desde o vértice da cascata, quase 50 metros acima. Pascal Badin
desliza pela corda valendo-se da técnica de rapel, cautelosamente evitando
as bordas afiadas da escarpa de basalto, cuja base encontra-se submersa
num poço. Ao final da corda, já mergulhado na água agitada pela torrente,
Pascal desprende o freio que deu segurança à sua descida e auxiliado
pelo neoprene flutua com a mochila até a margem..
Tendo o
último componente da equipe chegado incólume à margem, Patrick Gimat,
guia e instrutor, recolhe a corda, olha para o alto em direção ao início
do cânion, e avalia o árduo trabalho de grampeação das ancoragens iniciado
cedo naquela manhã de sábado. Ao mesmo tempo em que se reaquece ao sol,
retira da mochila um pequeno recipiente estanque chamado "bidon",
do qual puxa um sanduíche e uma barra de chocolate. Com ar distante
e a tranqüilidade peculiar àqueles aventureiros acostumados a ter a
adrenalina circulando nas veias, sofregamente saboreia o merecido almoço
com a certeza do dever cumprido. "Le Canyon des Indians" fora
conquistado!
Embora à primeira vista possa parecer que tal aventura tenha-se
dado em terras de França, em verdade "Le Canyon des Indians",
ou Cânion dos Índios como foi batizado em nossa língua pátria,
é mais um dos aproximadamente 36 cânions e gargantas com pelo menos
3.000 metros de extensão situados nos Aparados da Serra, na região da
Serra Geral que compreende a divisa nordeste do Estado do Rio Grande
do Sul com Santa Catarina, e cuja primeira travessia e equipagem do
vértice principal efetuadas por uma equipe mista de brasileiros e franceses,
foi acompanhada por mim em novembro de 1998.
Patrick
Gimat, Guia e Instrutor, Pascal Badin, Monitor, e Philippe Roscan, Guia,
são membros das Federações Francesas de Montanha e Espeleologia que,
guiados por Henry Gonçalves Lummertz, Neyton Reis Filho e Rafael Britto,
inauguraram intercâmbio efetivamente técnico de canyoning entre
Brasil e França ao passarem uma semana de travessias e conquistas nos
cânions da Serra Geral, ao sul do país.
O
que é canionismo
ou
canyoning
A vinda
dos franceses foi organizada pela Canyoning Inc., equipe de Porto
Alegre, e as atividades realizadas contaram também com a participação
de membros da ACASERGE - Associação Cânions da Serra Geral. Para quem
não sabe, o conceito original de canionismo, ou canyoning, nos
é fornecido pela escola francesa, criadora desta modalidade esportiva
a qual experimentou um grande impulso a partir da década de 70, popularizando-se
pelo mundo a partir de então.
A tradicional
definição do que seja canionismo quem nos dá é o Manuel Technique
de Descente de Canyons (Manual Técnico de Descida de Cânions) da
Federação Francesa de Espeleologia: Na descida de cânion a regra é simples:
ela consiste em seguir o rio a pé ou a nado, por vezes descendo cascatas
com rapel, deslizando entre as rochas e mergulhando nas piscinas de
água límpida.
É uma atividade
intensa ao alcance de todos (fisicamente é suficiente saber nadar).
Se a atividade parece fácil, a água viva (em movimento) esconde múltiplos
perigos e numerosos imprudentes pagam a cada ano pela falta de prática,
qualificação ou pelo equipamento insuficiente. A prática da descida
de cânions requer um equipamento adaptado: roupas de neoprene, cordas,
cadeirinha, freio, capacete...
É claro
que, quando conquistou adeptos pelo mundo, este conceito teve que ser
adaptado à geografia regional de cada praticante, eis que nem todos
os cânions apresentam a mesma formação geológica, o mesmo relevo ou
a mesma limpidez das águas da região onde França e Espanha dividem os
Pirineus, local em se difundiu esta modalidade esportiva.
Especialmente
no Brasil é comum confundir-se o canionismo com a simples descida de
cascatas através de técnicas de rapel e uso de abrigos de neoprene.
Nesta modalidade, denominada cascading, os praticantes não acompanham
o curso do rio até o final do cânion e, em verdade, se isoladamente
considerada, nada mais é do que apenas um aspecto parcial da prática
do canionismo.
Canionismo
- avanço do esporte
A vinda
dos franceses ao Brasil significou muito mais do que uma simples visita,
mas firmou um grande avanço do esporte e o reconhecimento, por parte
daqueles que são os mestres no assunto, que as técnicas aqui desenvolvidas,
adaptadas à geografia dos Aparados, na Serra Geral brasileira, encontram-se
à altura daqueles que contam com pelo menos três décadas de prática
nos cânions europeus. Mas nem tudo foi assim um mar de rosas...
Algumas
divergências técnicas entre brasileiros e franceses não foram resolvidas
após a semana de intercâmbio e talvez sequer o sejam nos próximos 100
anos, vez que foram colocadas face à face diferentes escolas de montanhismo,
hábitos por demais arraigados e até um pouquinho de nacionalismo...
Assim,
enquanto nos cânions da Serra Geral se preconiza o uso do freio tipo
"ATC", criação americana que não permite que se torça a corda
e assim evita que fique girando no ar aquele que rapela em ângulos negativos,
a férrea tradição francesa não abre mão do uso do freio "oito", orgulho
do montanhismo europeu pela sua grande versatilidade...
Entretanto,
trabalhando sempre em conjunto e usando cada time seus equipos de predileção,
ao final dos trabalhos nos cânions da Serra Geral já não era incomum
que se surpreendesse um disfarçado olhar de soslaio de parte à parte,
reconhecendo algumas "pequenas vantagens" da técnica alheia, quanto
mais ao reunirem-se todos no final de cada dia, frente à uma farta mesa
de jantar, confortados pela hospitalidade brasileira e embalados por
alguns cálices de vinho...
Amizade
entre Brasil e França
Ao total, completados 11 dias dos franceses em terras do sul entre atividades
urbanas e radicais, despediram-se nossos visitantes exaustos pelos trabalhos
e maravilhados com a exuberante geografia brasileira, restando como
testemunho da amizade iniciada dois novos vértices conquistados e equipados,
um vídeo para televisão e o principal: um convite para que em 1999 se
realizasse nos Pirineus um curso de canionismo especialmente preparado
pelos franceses para os brasileiros, ministrado pela Federação Francesa
de Montanha visando formar monitores e, posteriormente, instrutores
de cânions para o Brasil.
Com certeza
este é apenas o início de uma grande amizade com a qual muito ganhará
o canionismo nacional!
Porto Alegre,
Janeiro de 1999.